Eu não sei as palavras. Eu só estou impressionado.

“Eu não sei as palavras, eu só estou impressionado.”

Assim, carregado de honestidade e de uma rara sabedoria, Mateus, Secretário de Mesa e a criança mais nova a participar da Sessão Nacional do Ensino Básico do programa Parlamento de Jovens, apresentou-se na Assembleia da República Portuguesa nos dias 11 e 12 de maio de 2026. Sua fala ganhou notoriedade nas redes sociais alcançando milhares de visualizações e mobilizando outros milhares através de comentários entusiasmados sobre o valor da presença infantil naquele espaço.

Um espaço político tantas vezes desacreditado tornou-se, por alguns instantes, palco da esperança.

“Eu não sei as palavras.

Eu só estou impressionado.”

Uma criança de nove anos revive e recupera algo precioso e quase perdido dentro da democracia contemporânea: a capacidade de se impressionar. A coragem e sabedoria de habitar a falta das palavras e das falsas certezas.

Dois fundamentos da experiência humana que frequentemente se perdem em meio ao ruído produzido pelas disputas de poder, pela velocidade da informação e pela necessidade constante de opinião. Em tempos em que todos parecem impelidos a falar e posicionar-se imediatamente, uma criança nos relembra da importância da pausa e da contemplação daquilo que, em suas palavras, cabe ao extraordinário.

O Parlamento de Jovens, assim como outras iniciativas que promovem a participação infantil e juvenil, não apenas garante um direito previsto na lei portuguesa e na Convenção sobre os Direitos da Criança. Ela também produz um ganho para a democracia como um todo. Permite que outras formas de olhar o mundo alcancem os espaços públicos e nos obriguem a revisitar certezas que julgávamos consolidadas.

Mateus, neste momento devolveu ao espaço público algo que muitas vezes esquecemos: o lugar da criança.

E talvez tenha devolvido também algo da própria tradição democrática e da força socrática dentro da democracia. Em um espaço organizado pela retórica, pela resposta rápida e pelo domínio da linguagem, ele interrompeu o espetáculo das grandes certezas.

“Eu não sei as palavras. Eu estou impressionado.”

Sócrates ajudou a construir uma das bases daquilo que hoje entendemos como participação democrática ao defender que falar bem não é o mesmo que pensar bem. Que ocupar o espaço público exige reflexão ética. E que reconhecer a própria ignorância pode ser mais democrático do que fingir certeza.

Talvez seja por isso que sua famosa afirmação “Só sei que nada sei” continue atravessando séculos.

O que impressiona na fala de Mateus não é a ausência de palavras, mas a recusa de fingir que as possui. E, por esse motivo também, a possível causa de tamanha sensibilização gerada.

Vivemos em sociedades que valorizam enormemente a fluência verbal. Aprendemos a argumentar, justificar, explicar, convencer. Muitas vezes confundimos domínio da linguagem com profundidade de pensamento. As crianças nos lembram que não são a mesma coisa.

O que essa fala carrega sobre a infância? O que ela diz sobre nós, adultos?

Com frequência, descrevemos as crianças como puras, inocentes, fofas ou queridas. São representações que, embora aparentemente positivas, escondem algo fundamental: a profundidade política e filosófica da experiência infantil.

O que caracteriza a infância não é uma suposta pureza. É sua capacidade de interromper linguagens cristalizadas.

As crianças impressionam-se com o mundo.

Impressionam-se com a descoberta de si mesmas. Com a existência do outro. Com uma pedra, uma pergunta, uma nuvem, uma injustiça ou um inseto.

Ainda não perderam completamente a capacidade de espantar-se, essa semente da filosofia segundo Aristóteles. Talvez por isso a infância esteja tão próxima da experiência filosófica. A criança dança com a pergunta.

A criança olha para aquilo que os adultos já naturalizaram.

Pergunta aquilo que já deixamos de perguntar.

Questiona aquilo que aprendemos a aceitar.

E, justamente por isso, produz deslocamentos.

Os adultos contêm a palavra.

As crianças, cem e tantas linguagens.

A fala, o corpo, o traço, o som, o gesto, o silêncio.

Tudo compõe o universo expressivo de uma criança.

Por isso, quando Mateus diz não possuir as palavras, talvez não esteja comunicando uma falta. Talvez esteja apenas nos lembrando que existem formas de conhecimento que antecedem a linguagem formal.

Carrego comigo o poeta brasileiro Manoel de Barros com um lembrete constante daquilo que deve ser o trabalho de quem escreve: avançar para o começo; chegar ao criançamento da palavra.

Não por acaso, artistas como Miró e Picasso buscaram durante toda a vida aproximar-se do traço infantil. A genialidade, para eles, não consistia em afastar-se da infância, mas em recuperar algo dela.

Einstein afirmava que o sentimento mais belo que podemos experimentar é o mistério. Mia Couto postula que o silêncio é música em estado de gravidez. Claude Debussy acreditava que a música estava contida dentro do silêncio entre uma nota e outra.

Talvez todos estejam falando da mesma coisa.

Da potência criadora que reside no vazio; no espaço entre uma coisa e a outra.

Daquilo que surge quando suspendemos, por um instante, a necessidade de preencher tudo com palavras.

A fala de Mateus não é encantadora porque é infantil.

Ela é pertinente porque revela algo sobre a nossa própria condição.

A criança chegou ali afetada pelo mundo, enquanto os adultos chegaram munidos pelas suas próprias ideias e ideais.

Esse que, frequentemente, preenche o vazio com a palavra. A criança, por sua vez, diante do vazio, admite o espanto.

E talvez seja precisamente essa a sua contribuição para a democracia.

Não na substituição da palavra pelo silêncio, mas na recuperação de uma relação mais honesta entre ambos.

Não há escuta se não permitirmos que o silêncio fale. Não há encontro onde a escuta não acontece. A vida democrática, por sua vez, não pode sobreviver sem o encontro com o outro.

Um parlamento inteiro aplaudiu de pé justamente o momento em que uma criança confessou não dominar os códigos esperados daquele espaço. Talvez tenha sido um reconhecimento coletivo de algo que sentimos falta. Talvez, no fundo, todos estivéssemos impressionados também.

Impressionados porque uma criança nos recordou que a democracia não depende apenas da capacidade de falar. Ela depende igualmente da capacidade de escutar, de duvidar, de se deixar afetar e, por vezes, de admitir:

“Eu ainda não sei as palavras.”

Mas estou impressionada. E isso é extraordinário.